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Prevenção · Demências

Afinal, como prevenir as demências?

Capa do artigo: Afinal, como prevenir as demências?
"Doutora, o que eu faço para não ficar esquecido?"

Essa é uma pergunta muito comum no consultório. E a resposta começa por uma boa notícia: embora não seja possível zerar o risco de demência, há muito que pode ser feito para reduzi-lo.

A atualização de 2024 da Comissão Lancet sobre prevenção, intervenção e cuidado em demências reuniu evidências sobre fatores de risco potencialmente modificáveis ao longo da vida. A estimativa chama atenção: até 45% dos casos de demência poderiam, em tese, ser prevenidos ou adiados caso esses fatores fossem adequadamente enfrentados em nível populacional.

Isso não significa que uma pessoa desenvolverá demência por ter um desses fatores. Também não quer dizer que controlá-los garanta prevenção individual. Demência é uma condição complexa, influenciada pela idade, pela genética e por diversos aspectos da saúde. Ainda assim, a mensagem é muito prática: cuidar do cérebro também significa cuidar do corpo, dos sentidos, da saúde mental e das relações sociais.

O que quer dizer esse número de 45%?

O relatório utiliza uma medida chamada population attributable fraction, ou fração atribuível populacional. Em termos simples, ela estima qual proporção dos casos de demência está associada, na população, a determinados fatores de risco.

Esses percentuais não devem ser somados para calcular o risco de uma pessoa, porque muitos desses fatores se sobrepõem. Mas a estimativa reforça que a prevenção é possível e depende de ações concretas, tanto individuais quanto coletivas.

Comissão Lancet · 2024

14 fatores de risco modificáveis, ao longo da vida

Versão simplificada, elaborada a partir do relatório da Comissão Lancet 2024 sobre prevenção, intervenção e cuidado em demências.

01

Início da vidaaté 18 anos

  • Menor escolaridade
02

Meia-idade18–65 anos

  • Perda auditiva
  • Colesterol LDL elevado
  • Depressão
  • Traumatismo cranioencefálico
  • Inatividade física
  • Diabetes
  • Tabagismo
  • Hipertensão arterial
  • Obesidade
  • Consumo excessivo de álcool
03

Vida tardia65+ anos

  • Isolamento social
  • Exposição à poluição do ar
  • Perda visual não tratada
~45% dos casos de demência estão associados, em nível populacional, a esses 14 fatores — a fração atribuível populacional estimada pela Comissão.

Fonte: Livingston G, Huntley J, Liu KY, et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission. The Lancet. 2024;404(10452):572–628. doi.org/10.1016/S0140-6736(24)01296-0

A saúde do cérebro se constrói ao longo da vida

A Comissão Lancet organiza os fatores de risco em três fases: início da vida, meia-idade e vida tardia. Isso mostra que nunca é cedo demais, nem tarde demais, para olhar para a saúde cognitiva.

Início da vida

Até os 18 anos, o principal fator apontado é o menor nível de escolaridade.

A educação contribui para o desenvolvimento de habilidades cognitivas e para a construção da chamada reserva cognitiva. Em outras palavras, ela ajuda o cérebro a lidar melhor com mudanças relacionadas ao envelhecimento e a doenças.

Acesso à educação de qualidade também é uma medida de proteção à saúde cerebral.

Meia-idade

Entre 18 e 65 anos, entram em cena fatores muito presentes no dia a dia do consultório:

  • Perda auditiva
  • Colesterol LDL elevado
  • Depressão
  • Traumatismo cranioencefálico
  • Inatividade física
  • Diabetes
  • Tabagismo
  • Hipertensão arterial
  • Obesidade
  • Consumo excessivo de álcool

A atualização de 2024 incluiu o colesterol LDL elevado entre os fatores de risco modificáveis, principalmente na meia-idade. Isso reforça a importância de avaliar e tratar o colesterol dentro de uma estratégia individualizada de prevenção cardiovascular.

A audição também merece atenção. Perceber dificuldade para ouvir e buscar avaliação precoce não é só uma questão de comunicação. Pode fazer parte do cuidado com a saúde cognitiva ao longo do tempo.

Vida tardia

Após os 65 anos, os fatores destacados incluem:

  • Isolamento social
  • Exposição à poluição do ar
  • Perda visual não tratada

A redução da acuidade visual foi outra novidade incluída no relatório de 2024. Consultas oftalmológicas regulares, tratamento das causas de perda visual e adaptação correta de óculos ou outros recursos ajudam a preservar autonomia, participação social e qualidade de vida.

Os vínculos sociais também fazem diferença. Conversar, participar de atividades em grupo, cultivar relações e permanecer conectado à comunidade são formas de cuidar da saúde como um todo, inclusive da saúde cognitiva.

O que orientar na prática?

Não existe suplemento milagroso ou exercício isolado capaz de prevenir demência. A prevenção se constrói com cuidado contínuo:

  • Controlar pressão arterial, diabetes e colesterol
  • Não fumar
  • Evitar consumo excessivo de álcool
  • Manter atividade física regular
  • Tratar depressão e outras questões de saúde mental
  • Investigar alterações de audição e visão
  • Prevenir quedas e traumatismos cranianos
  • Preservar relações sociais e uma rotina com atividades significativas
  • Manter aprendizado e estímulo cognitivo ao longo da vida
  • Valorizar ambientes mais saudáveis, com menor exposição à poluição

Cada pessoa tem uma história, condições de saúde e prioridades diferentes. Por isso, as orientações precisam ser individualizadas.

A mensagem mais importante

Não existe risco zero, mas existe uma oportunidade real de reduzir riscos e, em alguns casos, adiar o aparecimento dos sintomas.

Falar sobre atividade física, alimentação, pressão arterial, colesterol, audição, visão, saúde mental e relações sociais não é apenas recomendar "estilo de vida". É parte ativa do cuidado com a saúde cerebral.

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