Quando se fala em demência, quase todo mundo pensa em Alzheimer. Mas os vasos sanguíneos do cérebro também têm um papel central na saúde cognitiva. Veja o que é importante saber sobre a demência vascular.
FATO 01É uma causa muito comum de demência
Estima-se que a demência vascular responda por cerca de 20% de todos os casos de demência. Na prática, o número real provavelmente é maior, porque formas mais leves e casos que se misturam com outras doenças nem sempre entram nessa conta.
Por isso, hoje se usa o termo mais amplo comprometimento cognitivo vascular: ele inclui desde alterações leves, em que a pessoa ainda mantém a autonomia, até a demência propriamente dita.
FATO 02Nem sempre começa com perda de memória
Na doença vascular, costumam aparecer primeiro dificuldades de atenção, de planejamento e de organização, além de um pensamento mais lento. A pessoa pode ter trabalho para conduzir tarefas com várias etapas, como mexer com finanças, preparar uma refeição completa ou organizar a rotina de medicamentos.
Também podem surgir lentidão para andar, desequilíbrio, urgência para urinar, tristeza, desânimo (apatia) e oscilações de humor. A memória pode ser afetada, mas muitas vezes não é o primeiro sintoma.
FATO 03O AVC é uma das principais portas de entrada
Depois de um AVC, o risco de comprometimento cognitivo é alto: em até 60% das pessoas que sobrevivem ao AVC há algum grau de alteração cognitiva no primeiro ano, principalmente nos seis primeiros meses. O AVC dobra o risco de demência, e o AVC hemorrágico está associado a um risco ainda maior que o isquêmico.
A boa notícia é que, nesse período inicial, pode haver alguma recuperação das funções cognitivas. Por isso, o acompanhamento depois do AVC é tão importante.
FATO 04Também existe a forma "silenciosa"
Nem toda demência vascular vem de um AVC com sintomas claros. Muitas vezes, ela resulta do desgaste lento e acumulado dos vasos muito pequenos do cérebro, a chamada doença de pequenos vasos. Nesses casos, a pessoa pode nunca ter tido um evento dramático, e o quadro avança aos poucos.
A ressonância magnética mostra com frequência pequenas lesões na substância branca do cérebro, que são muito comuns com o avançar da idade. O significado dessas alterações depende do conjunto: sintomas, exame neurológico, avaliação cognitiva e fatores de risco.
FATO 05A evolução pode ser em "degraus" ou lenta
Quando há AVC, é comum que a piora aconteça de forma abrupta ou em degraus: a pessoa fica estável por um tempo e piora depois de um novo evento. Já na doença de pequenos vasos, a evolução costuma ser gradual e lenta, parecida com a de doenças neurodegenerativas.
Por isso, observar como as mudanças começaram e evoluíram ajuda muito na avaliação.
FATO 06Ela começa mais cedo do que se imagina
Os primeiros sinais de doença de pequenos vasos já podem ser vistos na meia-idade, e quanto maiores as lesões, maior o risco de declínio cognitivo e demência no futuro.
A mensagem prática é que cuidar da pressão, do colesterol, da glicose e de outros fatores de risco vasculares precisa começar cedo, antes que o dano maior aconteça.
FATO 07Muitas vezes ela convive com o Alzheimer
Nos estudos de autópsia, a combinação de várias alterações cerebrais é mais comum do que uma única doença isolada, e a associação mais frequente é justamente entre Alzheimer e doença cerebrovascular.
Quando há doença vascular, o cérebro tolera menos as outras alterações: sintomas podem aparecer com uma quantidade menor de alterações do Alzheimer. Por isso, cuidar dos vasos também é uma forma de proteger o cérebro contra outras doenças.
FATO 08Coração e circulação fazem parte da história
Algumas doenças cardiovasculares estão ligadas a maior risco de declínio cognitivo, como a fibrilação atrial, a insuficiência cardíaca, a doença das artérias coronárias, o infarto do coração e o estreitamento importante das artérias carótidas. Entre os mecanismos possíveis estão pequenos êmbolos, redução do fluxo de sangue para o cérebro e inflamação.
Por isso, a avaliação de uma pessoa com queixa cognitiva pode incluir também o coração e os vasos do pescoço.
FATO 09O diagnóstico envolve mais do que um exame
A avaliação começa pela história clínica, contada pelo paciente e, sempre que possível, por alguém próximo. Em seguida vêm o exame neurológico e a avaliação de diferentes funções cognitivas, como atenção, memória, linguagem e planejamento.
A ressonância magnética do cérebro é o exame de imagem preferido, pois detecta melhor a doença de pequenos vasos. Exames de sangue ajudam a descartar outras causas de alteração cognitiva, como problemas de tireoide e deficiência de vitaminas.
Em pessoas mais jovens, com enxaqueca, vários eventos vasculares e histórico familiar parecido, também podem ser consideradas causas hereditárias raras.
FATO 10Há muito que pode ser feito, principalmente na prevenção
A demência vascular é, em grande parte, evitável, e o foco do cuidado está nos fatores de risco. Estudos mostram que controlar a pressão arterial reduz o risco de declínio cognitivo. Quem já teve AVC ou ataque isquêmico transitório precisa de medidas de prevenção individualizadas, definidas pela equipe médica.
A Associação Americana do Coração resume a saúde cardiovascular em oito pontos, os "Life's Essential 8", que também protegem o cérebro:
- Alimentação saudável, no padrão de dieta para controle da pressão
- Atividade física regular: a meta é de pelo menos 150 minutos por semana de intensidade moderada
- Não fumar
- Sono saudável, de 7 a 9 horas por noite
- Peso adequado
- Colesterol controlado
- Glicose (açúcar no sangue) controlada
- Pressão arterial controlada
Também contam o bem-estar emocional e os fatores sociais, como acesso a serviços de saúde, apoio de pessoas próximas e educação. As metas precisam ser individualizadas com o seu médico, e a reabilitação, a estimulação cognitiva e o apoio da família fazem parte do cuidado de quem já tem sintomas.
A mensagem mais importante
A demência vascular é comum, pode se apresentar de formas diferentes e muitas vezes aparece junto com outras doenças. Mas é também uma das condições mais passíveis de prevenção: o que faz bem ao coração e aos vasos faz bem ao cérebro.
Se você ou alguém da família notou mudanças no raciocínio, na organização, no humor ou no andar, procure uma avaliação especializada. Quanto mais cedo o cuidado começa, maiores as chances de preservar autonomia e qualidade de vida.
Referência: Silbert LC. Vascular Cognitive Impairment. Continuum (Minneap Minn). 2024;30(6, Dementia):1699–1725.